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Conteúdo atualizado em 19.03.2020


Discurso de posse do novo reitor da USP

Luís Victorelli
28/01/2014

Discurso de posse do novo reitor da USP

Discurso do professor Marco Antonio Zago por ocasião de sua posse como Reitor da Universidade de São Paulo (USP), em 25 de janeiro de 2014


Senhor governador, senhor vice-reitor, membros do colendo Conselho Universitário, autoridades, senhoras e senhores,

A Universidade de São Paulo completa hoje 80 anos, se considerado o decreto de sua organização formal de 25 de janeiro de 1934. Suas origens, no entanto, são centenárias e remontam à criação da Faculdade de Direito em 1827, seguida das cinco outras escolas profissionais que, aglutinadas com a Faculdade de Filosofia, Ciências e Letras, instituída pelo mesmo decreto, constituíram o núcleo inicial da USP.

Uma característica surpreendentemente moderna daquela universidade nascente era a diversidade intrínseca de sua missão. Devia ser, ao mesmo tempo, escola de formação profissional de elevada qualidade; instituto de pesquisa de ciências, letras e filosofia; local de formação das lideranças intelectuais, e de criação, compreensão e transmissão da cultura.

E essa universidade, assim constituída, revelou-se um projeto político e estratégico bem sucedido, ao qual vieram agregar-se as outras duas universidades estaduais paulistas (UNICAMP e UNESP), os institutos de pesquisa como Butantã, IPT, IPEN e IAC, o Centro Paula Souza e a UNIVESP, como instrumentos de uma política que colocou o Estado de São Paulo em posição de liderança no país, na produção intelectual e na formação de pessoal qualificado de nível superior.

As universidades existem para prover educação superior de excelência às novas gerações e para promover a pesquisa, entendida no sentido mais amplo, ou seja, a investigação experimental e tecnológica, a pesquisa dos problemas humanos como o exame das questões econômicas, políticas e sociais, as dimensões acadêmicas ligadas às manifestações culturais e artísticas, entre outras, estendendo seus resultados à sociedade.

Uma universidade de alto padrão acadêmico não pode, no entanto, tratar suas duas missões tradicionais, o ensino e a produção intelectual, como dois compartimentos estanques, mas devem ser desenvolvidos de forma articulada: não é possível ser forte em pesquisa e fraco no ensino. Somente a existência de grupos de pesquisa e laboratórios de excelência, por exemplo, garante o desenvolvimento de cursos de pós-graduação, caso contrário, a formação pós-graduada seria uma atividade vazia.

Nas palavras de Karl Jaspers, “a universidade é uma escola, mas de um tipo muito especial. Não deve ser vista apenas como um local de instrução; pelo contrário, o estudante deve participar ativamente da pesquisa e, desta experiência, ele deve adquirir a disciplina intelectual e a educação que permanecerão com ele pelo resto de sua vida. Idealmente, os estudantes pensam de maneira independente, ouvem criticamente e são responsáveis perante si mesmos. Eles têm liberdade de aprender.”

Pela natureza de sua missão e de seus interesses, as universidades são entidades que transcendem as fronteiras nacionais. Tratam de questões que são valorizadas em todas as culturas, em todas as nações e nas mais diferentes épocas. Basta olharmos para as universidades nascentes na Europa medieval, quando os jovens das mais diversas origens nacionais buscavam Bolonha, Paris, Coimbra ou Oxford. Mas, é preciso ressaltar que, da mesma forma que ocorria na Idade Média, não se alcançará a internacionalização por meios burocráticos ou artificiais. Somente universidades reconhecidas como centros de conhecimento atrairão os jovens de nosso mundo globalizado.

Adicionalmente às suas duas missões clássicas, ensino superior e pesquisa, a última década fortaleceu o reconhecimento da chamada “terceira missão” das universidades, que inclui todas as relações das universidades com seus parceiros não-acadêmicos. Divergindo da característica transnacional do ensino e da pesquisa universitários, a terceira missão fortalece o vínculo com as comunidades locais e regionais, expostas hoje a mudanças rápidas ou inesperadas, como a globalização, mudanças climáticas, incertezas econômicas e rápidas transformações tecnológicas.  A USP deve contribuir para com o poder público para responder aos difíceis problemas derivados da concentração populacional em grandes metrópoles, da mudança rápida do perfil etário e de consumo da sociedade, bem como da crescente substituição da economia baseada em mão de obra e riquezas naturais por uma sociedade de informação e do conhecimento. O mundo de hoje exige das universidades ações que vão além de seus muros.

Como afirmamos em nosso programa, a relevância das universidades brasileiras será determinada pela sua capacidade de responder criativamente aos desafios dos problemas emergentes no cenário atual: a expansão dos fenômenos da cultura, o crescimento de reivindicações de acesso ao conhecimento e à herança cultural da sociedade, a exigência de que as instituições, sobretudo as públicas, atendam aos anseios dos atores sociais diferenciados, a necessidade de ampliar a inclusão social, a habilidade de sincronizar-se aos movimentos do conjunto da sociedade, a capacidade de transformar conhecimento em inovação, tanto no setor produtivo como para as políticas públicas.

A USP não se furtará às suas responsabilidades. Mas, há que reconhecer que ela encontra-se hoje sob fortes pressões originadas de fora e de dentro dela mesma. Ameaças e pressões, por si só, não são intrinsecamente negativas, pois podem representar oportunidades de mudanças e de construção de maior coesão.

Mas, a quais ameaças e pressões a USP está sujeita? De um lado, ela precisa reagir vigorosamente à expectativa da sociedade, legítima, de uma resposta às crescentes demandas sociais. De outro lado, passamos por um desequilíbrio financeiro que pode pôr em risco nossa autonomia.

Mas, a mais grave das ameaças é a corrosão do tecido mesmo da universidade, tanto por movimentos de protesto, que se têm transformado em agressões ao patrimônio e às pessoas, como pela intolerância ao diálogo, que ameaça transformar a universidade em um túmulo de ideias.

Temos que reagir, temos que enfrentar esses desafios, de três formas distintas:
Primeiramente, aumentando a contribuição da USP para a sociedade paulista; nós precisamos fazer mais e melhor. Temos que melhorar a qualidade e reduzir a evasão de nossos cursos de graduação. Precisamos reavaliar o sistema de acesso e acompanhar com atenção o progresso da inclusão social e racial, construindo as intervenções que forem necessárias.

A USP Leste e o campus de Lorena serão dois motivos adicionais de orgulho da USP, e devem ter impacto positivo nas regiões onde estão implantados, da mesma forma que tiveram nossos campi de Ribeirão Preto, de São Carlos, de Piracicaba, de Bauru e de Pirassununga. Precisamos ampliar nossa relação com os setores produtivos e governamentais, participar da articulação e implantação dos parques tecnológicos.

Em segundo lugar, vamos modificar radicalmente a gestão de recursos financeiros, reformar e modernizar a administração para valorizar as atividades-fim. Não é possível que uma simples mudança num curso de graduação exija interminável ritual de discussões e aprovações, que pouco ou nada contribuem para melhorar a qualidade das decisões.

A gestão comedida de recursos financeiros restritos nos obrigará à sobriedade administrativa e à avaliação conjunta das nossas prioridades, privilegiando a promoção de atividades acadêmicas e de recursos humanos em relação à expansão de obras físicas.

Finalmente, temos compromisso com a revisão da governança da universidade, que passa por uma crise nas suas formas de legitimação e de gestão. Por isso, assumimos o compromisso de repactuar as relações no âmbito da universidade, de forma a aumentar a agregação interna, trazendo o diálogo, e não mais o confronto, para o centro da vida universitária, numa forma de democratização que avance muito além do mecanismo de escolha do Reitor.  Uma democratização que reverta a desconcentração do poder que caracterizou as sucessivas gestões recentes, e que inclua o compartilhamento de responsabilidades entre a Reitoria e as unidades acadêmicas, maior transparência na gestão do orçamento e restabelecimento do papel central dos órgãos colegiados.

Mas, não resta qualquer dúvida de que a nossa mais urgente tarefa, que será um encargo permanente de todos, a partir de amanhã, é a reconstrução das relações entre estudantes e professores, em todas as suas dimensões. Esta será a base da mudança que ocorrerá na USP. Não podemos esquecer, nunca, que somos, acima de tudo, educadores, e seremos julgamos pelo êxito que alcançarmos nessa missão. Os jovens que formaremos vão atestar se a USP, quando se aproxima de seu centenário, está realmente cumprindo sua missão, como sonharam seus fundadores.

Para isso, eu os convoco a todos, estudantes, docentes e servidores, para respondermos em conjunto aos desafios que se nos apresentam, nas palavras poéticas de João Cabral de Melo Neto:
 
Um galo sozinho não tece uma manhã:
ele precisará sempre de outros galos.
De um que apanhe esse grito que ele
e o lance a outro; de um outro galo
que apanhe o grito de um galo antes
e o lance a outro; e de outros galos
que com muitos outros galos se cruzem
 os fios de sol de seus gritos de galo,
 para que a manhã, desde uma teia tênue,
 se vá tecendo, entre todos os galos.

 
A campanha acabou, os rituais da transmissão do cargo esgotaram-se neste momento. Somos agora aliados pela mesma causa. Permitam-me evocar, pela última vez, o lema que nos moveu nesta campanha em prol da universidade: agora somos Todos pela USP! Todos pela USP!

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